Novembro 08, 2001

Antecipei a viagem para o dia 14, saída de Narita (Tóquio), ao invés de Nagoya. O serviço acabou um dia antes, e também decidi passar um dia na casa da mana, que é perto de Tóquio. Nesta terça vou para Saitama, passo a noite lá e depois vou para o aeroporto, com bastante tempo.
Agora aqui estou na correria. Daqui a pouco vem a compradora do Risaikuru. Amanhã vem o Takkyubin retirar as malas para despachar para o aeroporto. E ainda tenho que ir com um amigo motorizado levar os aparelhos eletrônicos para o Hard-of.Cancelar a assinatura do provedor, da operadora de telefonia para o Brasil, do telefone celular e transferir o telefone fixo para o endereço da mana. Despachar algumas coisas antes para a mana, comprar algumas lembranças. E se sobrar alguma coisa no apê, chamar o caminhão de lixo da prefeitura para retirar.
Estou levando a CPU deste micro para o Brasil, como tenho que despachar as malas amanhã, este é o último dia de Internet para mim, por enquanto.
Volto a me conectar nesses feriados de 15 de novembro, em Sampa.

Risaikuru é como os japoneses pronunciam Recycle Shop, loja de reciclados. Na verdade é outro nome para loja de móveis usados. Quando tem um grande, se pode comprar móveis, eletrodomésticos, geladeira, máquina de lavar roupa, bem baratinho.

Takkyubin é serviço de entregas rápidas. No Japão todo mundo usa, para qualquer coisa, tanto empresas como particulares. Pode ser pequenos volumes ou mudança inteira. Você telefona, eles vem retirar em casa e entregam aonde você quiser. Também se pode levar na loja de conveniência e pedir para retirar lá. Em todo lugar no Japão sempre tem alguma loja de conveniência, aberta 24 hs. Nelas se pode comprar comida, lanches, bebidas, revistas, jornais, artigos de necessidade. Eles também recebem pagamentos, tem máquinas de xerox, fax, microondas para esquentar comida. Também se pode marcar para receber entregas na loja de conveniência, se você tem alguma dificuldade para receber em casa. Pode, por exemplo, comprar pela Internet, imprimir a fatura na sua impressora, pagar no Kombíni, que é como os japoneses pronunciam convenience shop, e mandar entregar na loja mais próxima de sua casa.
A maioria das pessoas, quando vai viajar de avião, manda pelo Takkyubin para o aeroporto, e lá, é só retirar no balcão deles, dentro do aeroporto.

Hard-of são lojas de aparelhos eletrônicos usados. Em todas as cidades sempre tem algum. Lá você encontra aparelhos de som, tevês, filmadoras, computadores, games, etc. São divididos em duas seções. Na primeira tem os aparelhos usados mas que funcionam. Na segunda, os usados com defeito ou quebrados. Geralmente as pessoas que compram esses levam para tirar peças para consertar algum outro.


Últimas horas na Internet.

Novembro 07, 2001

A decisão da viagem foi mais emocional que racional, na verdade, se fosse pensar em no lado material, eu não poderia voltar ao Brasil agora. Vou com muito pouco dinheiro, em 2 ou 3 meses pretendo voltar, porque senão não vai dar para segurar. Aí, depois desse reencontro, teremos mais gás para acabar de resolver o nosso problema financeiro.

Pretendo ficar com a conexão à Internet até o último dia que for possível. Quando estiver em casa, em Sampa, vou usar a conexão da Beth, portanto, mesmo com a viagem não vou ficar muito tempo sem Internet.
Estou levando a CPU do meu computador para a Beth usar, o que ela tem agora é muito fraco, mesmo comparado com o meu Celeron 533. Aí, quando eu voltar ao Japão, possivelmente em janeiro, vai demorar um bom tempo para me conectar de novo. Vou ter que esperar receber o primeiro salário (nem sei se vai ter trabalho!) para comprar um micro de novo.

Aqui a situação ainda está muito nebulosa, está difícil enxergar um pouco à frente no horizonte. Meus colegas tem ligado para várias empreiteiras e as vagas são muito poucas. O que é possível é ficar aqui e ir pegando trabalhos temporários até aparecerem vagas de novo.
A Murata tem chamado algumas pessoas para reassumirem exatamente o mesmo posto de antes, mas são muitos poucas pessoas. E muitas foram consultadas mas não foram chamadas. enfim, ainda não dá, absolutamente para dizer quando vai melhorar.

Meus colegas que tem tv a cabo contam que o Jornal Nacional da Globo está fazendo uma série especial sobre os brasileiros no Japão. Mostrou até brasileiros que dizem estar passando fome, que moram embaixo da ponte. Há alguns anos atrás já havia brasileiros nessa situação, mas isso demonstra bem como está agora. Mas esses casos extremos são muito poucos, na verdade. Hoje muitos brasileiros se viram mais ou menos no japonês e se precisar sempre tem servicinhos que se pode fazer, pelo menos para poder morar e comer.


Bem, pelo menos este fim de ano eu vou passar com a Beth e o menino.
Hoje é o último dia de trabalho para alguns, os outros foram comunicados ontem que já não precisavam vir trabalhar. O serviço já acabou, antes do previsto. Tem levas de gente conhecida minha voando para o Brasil a partir de amanhã, dia 8, e dias 13, 15, 20. Ainda alguns se encaixaram em algum emprego aqui e ali, em lugares que já trabalharam antes. E outros vão para casa de parentes ou amigos e continuar procurando emprego ou fazendo trabalhos temporários. E ainda tem gente que nem tem idéia para onde vai.
Tem neve em uma série de montanhas do lado oeste da minha casa.
Fotki já voltou.

Novembro 06, 2001

As imagens não estão aparecendo porque o Fotki está fora do ar, é lá que as imagens do blog ficam armazenadas.

Novembro 05, 2001


Bilhete de trem local, da estação de Hirooka, aqui pertinho de casa.

Globalizando


Impressionante como esta empresa é ligada ao exterior. Quando começamos a trabalhar em Matsumoto, em julho, havia um grupo de indonésios e outro de mexicanos, fazendo treinamento na nossa linha. Logo a linha foi desmontada e mandada para a Indonésia, e outras duas montadas no lugar, que ficamos tocando. Semana passada uma dessas foi desmontada e mandada para o México e outra parece que vai para a Indonésia. Ao mesmo tempo havia um grupo de ingleses fazendo treinamento no setor ao nosso lado.
Aqui em Shiojiri ficamos embalando produtos feitos no México e EUA, para serem mandados para a Coréia.
Estou embarcando para o Brasil no próximo dia 15, dia da República. Ainda existe uma remota possibilidade de transferir a viagem para o dia 20, mas isso vai ser o máximo de adiamento. Vou tentar ficar com a conexão à Internet o máximo de tempo possível, vai ser complicado para deixar as contas pagas, mas estou a fim de aproveitar o máximo possível.

Estávamos pedindo para a empreiteira esticar esse trabalho até o dia 15, seria o ideal, cada dia de trabalho é uma grande ajuda. Mas hoje eles já nos mandaram para casa sem Zanguiô (Hora extra), então não deve ter tanto trabalho assim, mesmo que seja até o dia 9.
Ontem e hoje nos mandaram fazer típico trabalho de Arubaito, trabalho temporário. Ficamos embalando produtos da fábrica, ontem éramos só nós, uns 12 transferidos, em uma única linha. Hoje haviam duas linhas de empacotamento no salão onde ficamos, mais uma ao lado só com senhoras japonesas. Nós fomos para um galpão de expedição, para colocar etiquetas extras nos produtos embalados, e lá já havia outro grupo de senhoras trabalhando. A maioria desse pessoal eram trabalhadores temporários.

15 de novembro!


Tô Voltando

Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando

Põe meia dúzia de brahma prá gelar, muda a roupa de cama
Eu tô voltando

Leva o chinelo prá sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar porque eu tô voltando

Dá uma geral, faz um bom defumador, enche a casa de flor
Que eu tô voltando

Pega uma praia, aproveita, tá calor, vai pegando uma cor
Que eu tô voltando

Faz um cabelo bonito prá eu notar que eu só quero mesmo é despentear
Quero te agarrar, pode se preparar porque eu tô voltando

Põe prá tocar na vitrola aquele som, estréia uma camisola
Eu tô voltando

Dá folga prá empregada, manda a criançada prá casa da avó
Que eu tô voltando

Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar

Quero lá lá lá iá, lá lá lá lá lá iá, porque eu tô voltando



Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro
Simone

Novembro 04, 2001

Para quando você está deprê



NÃO CHORE MAIS

Bem que eu me lembro
Da gente sentado ali
Na grama do aterro, sob o sol
Ob-observando hipócritas
Disfarçados, rodando ao redor

Amigos presos
Amigos sumindo assim
Pra nunca mais
Tais recordações
Retratos do mal em si
Melhor é deixar prá trás

Não, não chore mais
Não, não chore mais

Bem que eu me lembro
Da gente sentado ali
Na grama do aterro, sob o céu
Ob-observando estrelas
Junto à fogueirinha de papel

Quentar o frio
Requentar o pão
E comer com você
Os pés, de manhã, pisar o chão
Eu sei a barra de viver

Mas se Deus quiser
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé

Não, não chore mais
Não, não chore mais



(No Woman, No Cry, de B. Vincent)
versão de Gilberto Gil
1977
© Bob Marley Music/Mercury

Cumprindo regras


Existe pelo menos uma vantagem em trabalhar de dia. Agora conseguimos colocar o lixo para o lixeiro levar. Trabalhando à noite não conseguíamos colocar o lixo, no nosso prédio ele tem que ser deixado num cubículo gradeado, trancado a chave. O Horário de deixar o lixo é das seis da manhã até as oito horas, sendo que nós só chegavamos em casa as nove e meia! Em muitos lugares o lixo fica num container ou gradeado sem chave, mas no nosso prédio é assim.
Já chegamos até a pedir a chave para a dona do prédio no dia anterior, ou então para deixar destrancado na véspera, mas o melhor que ocorreu à dona foi deixarmos o lixo no dia anterior na entrada do estacionamento e ela colocaria lá!
Uma das coisas que é preciso se ter paciência em relação aos japoneses é que regra para eles é Lei. Enquanto que para nós nem toda lei é regra. E eles nunca as questionam, supõe-se que se existe uma regra, há uma boa razão para isso, mesmo que não tenha sido enunciada. E normalmente há mesmo alguma boa razão, admito. Só que feitas as regras, eles se tornam prisioneiros delas, preocupam-se obsessivamente em cumpri-las, mesmo quando estão atrapalhando.

Mais Notas


Yahoo Expatriados na lista de links, aí ao lado. Até que tem alguns sites interessantes e/ou úteis para os brazucas que estão longe do Patropi.

Povo, não tenho postado todo dia por que agora, trabalhando de dia, tenho um sono danado à noite, não me conformo. Antes, trabalhava a noite toda, e quando chegava em casa, quase não tinha sono. Agora, só porque é escuro de noite, o organismo insiste em ter sono!

Alguém pode retrucar e dizer que mesmo antes eu já não atualizava todo dia, que essa desculpa não cola. Aí já entra o outro problema, a "Síndrome do Blogueiro", que me contaram por e-mail. O blogueiro que sofre desse mal pensa, durante o dia, em uma porção de posts legais para publicar, mas quando finalmente vai blogar, esqueceu tudo.

Hoje no topo de uma montanha já havia neve.

Hoje comecei a trabalhar na unidade da empresa aqui perto de casa, a 600 metros de distância. Fomos transferidos para cá para cumprirmos esta última semana de aviso prévio. Bem diferente, muito melhor, teria sido o paraíso se estivessemos aqui desde o começo. O ambiente é bem à vontade, não tem aquela porção de chefes pegando no pé o tempo todo, não precisamos usar aquela roupa toda de câmara limpa (macacão, touca, protetor de pé, luvas e máscara), o refeitório é perto. E dá para ir a pé para casa, e o horário também é diferente. Antes chegava em casa 9:30 da noite, agora dá para estar de volta as 8 e meia. Pena que é só por uma semana.

E a saudade está muito forte, e a carência, muito grande. Decidi parar de pensar só no material e dar ouvidos à mente emocional. Vou para o Brasil na segunda quinzena deste mês. Como sei que as adversidades vão insistir em continuar existindo, volto para cá em meados de janeiro, senão teremos um morador chamado fome, lá em casa.

Outubro 30, 2001

Notas

Êeeeehehehe! Este blog agora está no Yahoo Brasil. Está com o nome errado, mas o link está certo.
Engraçado que eles colocaram em mais uma categoria, além dessa lista aí no links, colocaram em Sociedade > Grupos e Culturas > Expatriados . É, é isso que sou, um expatriado. O importante é que do site do Yahoo Brasil, se colocar, blog e japão, ou blog e exílio, exibe logo de cara o Grillo In Box.
Já caiu por aqui uma porção de gente procurando por Japão.
E descobri que este site aí do banner ao lado, o japan zone, me colocou na lista de links deles, hehehe! Para que vai servir um link de site em português, eu não sei, mas que está legal, está.

Faltou falar que na Rádio Grillo também tem uma porção de Black Music, não atuais, mas eternas. Inclusive a gravação de Jumpin' Jack Flash por Aretha Franklin, não muito conhecida, mas que pode te levar ao êxtase.

No post sobre o sogro da minha irmã, que foi soldado, mencionei o filme do Spielberg, em referência ao imperador da China. O certo é o filme O Último Imperador, de Bertolluci. E nenhum dos oito leitores do blog notou, prova de que ninguém lê com atenção estes posts, produzidos com tanto carinho, snif!

E achei um blog que me linkou! O nome do rapaz é Patriota, acreditem! E é tão patriota que fica caçando blogs brazucas no exterior para linkar, legal, hehehe!
Se ferrou! Agora eu vou linkar ele também! :)

Outro que vai para os links é esse rapaz sincero, tipo o Cássio. Ele já é leitor da Belle, achei pelos referrals do contador dela. Quando vocês lerem os posts dele vão entender por que eu quis linka-lo. Como já falei em PVT sobre ele para tres amigos, os outros cinco leitores ficam sabendo por este post.

Outubro 26, 2001

Montei a Rádio Grillo, finalmente. Para ouvir, clique no banner aí ao lado.
Se chama simplesmente Grillo In Box. A referência é a Eldorado FM, de Sampa. Geralmente descrito como adulto contemporâneo, é o que se supõe que pessoas de mais de 35, com bom gosto, informadas, etc, ouvem. Tem tipo, Sade, Morcheeba (que só vi que também é música de novela quando vi na usina), US3, jazz tipo Dinah Washington e assemelhados.
Mas não só isso. Tem algum rock, pouco, só os que conheci aleatóriamente, nunca fui fã em especial de nenhum grupo, não acompanhei a trajetoria de ninguém, nunca tive dinheiro para comprar muitos discos (de vinil, na época), nem tinha amigos que fizessem o mesmo e que eu pudesse ouvir.
Tem também muita MPB, Gil, Caetano, Bethania, Gal, Elis, João Bosco e alguns outros.
Podia ter feito uma ou mais rádios, cada uma com uma característica, como os da Belle X ou do Cássio. Seria bom porque você pede sabendo o que vai ouvir, já vai de acordo com o seu estado de espírito. Mas eu já demorei muito para selecionar esta, imagine várias, então.
Além disso, quando ouço rádio, gosto que a programação fique passando por vários gêneros, por melhor que seja, não consigo ficar muito tempo ouvindo o mesmo tipo de som.
Eu podia ter colocado um monte de links nesses nomes desse post, mas estou cabeceando de sono. Os links para a Belle (Cantinho Terrorista), o Cássio e a Eldorado FM estão aí do lado.
O sogro de minha irmã foi soldado do Império Japonês na Segunda Guerra Mundial. Podia estar agora num daqueles túmulos das ilhas Aleutas. Não foi mandado para lá, mas sim para a Manchúria, região do Norte da China, onde os militares japoneses criaram um governo fantoche, nominalmente governado pelo Último Imperador da China. Sim, aquele do filme do Spielberg.
O velho, bem jovem na época, foi feito prisioneiro pelos soviéticos, e passou dois anos na Sibéria, submetido a maus tratos, fome, frio, marchas e trabalho forçado. Eram obrigados a construir estradas de ferro, derrubar árvores, quebrar pedras e outras agradáveis atividades.
Um dia reparou que um colega, prisioneiro japonês como ele, estava em pé, apoiado na picareta, fazendo absolutamente nada, e nenhum guarda soviético o perturbou. À noite foi saber com ele por que o guarda não havia dito nada. Descobriu, então, que os guardas não perturbavam um prisioneiro que estivesse fumando. Foi assim que o velho do meu cunhado começou a fumar.
Em certas ocasiões, dormiam em galpão com aquecimento precário, no inverno siberiano. Era frequente, ao acordar de manhã, descobrir que o colega na cama ao lado havia morrido de frio, dormindo.

What a Wonderful World.

Outubro 25, 2001

Socorro! Passei a dormir cinco horas por dia! Se antes já não dava tempo, agora muito menos, para responder e-mails, blogar, ver sites, pesquisar.

Outubro 23, 2001

Oi!
Agora este blog tem comments nos posts! Basta clicar ali, onde está escrito "comente este post" e rapidinho abre uma janela para voce publicar a sua opinião.
Andei vendo os comments de outros blogs, é muito fácil de usar e faculta aos leitores a livre expressão da sua opinião.
Bonito, heim?
E se ninguém comentar, significa que todo mundo que leu concordou, hehe! ;)
E se você quiser comentar, criticar ou elogiar qualquer coisa, mas não em público, use o e-mail aí ao lado. Para você que não usa OE, ou acessa de Cibercafé, futuramente colocarei um mail form.
Cemitérios 2
Clique para ir para o site

Clique para ampliar Clique para ampliar

Este deve ser um dos cemitérios mais desolados do mundo, fica em Attu, a mais extrema das ilhas Aleutas pertencente aos EUA. Ilhas Aleutas, se você não clicou no link, são aquela série de ilhas entre o Alaska e a Sibéria. Na Segunda Guerra Mundial ela foi tomada pelos japoneses, e depois reconquistada pelos americanos, que a usaram como base aérea.
Cemitérios 1


Estava vendo o post da Belle sobre os cemitérios, e fiquei lembrando dos cemitérios que vi em Takefu. No Japão os cemitérios podem ser em qualquer lugar. Em Tóquio, com a falta de espaço, é normal um cemitério ficar espremido entre uma linha de trem, um prédio de apartamentos e uma escola, por exemplo.
Mas nas províncias os cemitérios muitas vezes ficam no meio da mata de uma montanha, no meio de plantações de arroz, ou mesmo do lado de casa. Eles sequer são delimitados, à exceção daqueles dentro do terreno de templos. Em outro caso, pode se ir andando por um terreno qualquer e se deparar com um pequeno grupo de túmulos no meio do mato, na beira da estrada, ao lado da linha do trem.
No verão, começa a clarear às quatro e meia da manhã. Nos dias de folga eu adorava pegar a bicicleta e sair, observando a paisagem, bem cedo, cinco, seis horas da manhã. Era muito bom andar pelas ruas, caminhos desertos, observar o movimento aumentar pouco a pouco, olhar as casas, ruas, plantações, montanhas, nada em especial.
Naquela região todas as montanhas são cobertas por florestas. As áreas urbanizadas ocupam os lugares planos e exatamente onde começa a encosta da montanha começam as árvores. Em um desses passeios reparei num pequeno cemitério no pé de uma montanha. Este era um cemitério delimitado, com duas dúzias de túmulos, mas do lado dele saía um caminho que subia a encosta, entrando no mato. Seguindo por ele, havia mais túmulos aqui e ali, em pequenas clareiras planas, as vezes em grupos de três, outras vezes, solitários. Tudo isso em meio a pés de bambu enormes, a mata fechada, o ambiente sombrio em pleno dia, mas tranquilizador ao mesmo tempo.
Esse cemitério da foto é de uma família samurai, o cemitério que vi na montanha não era exatamente assim. Quando voltar lá com uma câmera decente, ponho umas fotos.

Já que falei em cemitério, no Japão os mortos são sempre cremados o mais rápido possível, e o enterro propriamente dito marcado para alguns dias mais tarde. Enterro com dia marcado, uma peculariedade oriental, hehe!
Mesmo no Brasil, eu conhecia uma família em que o avô morreu em São Paulo, mas eles queriam fazer o enterro no interior. Então decidiram cremar o corpo e a filha guardou a urna com as cinzas no seu apartamento durante um mês, até terem a oportunidade de fazer o enterro.
O meu colega Yamamoto foi chamado para voltar a trabalhar na Murata. É ele a quem chamei de J., no post da mudança. Que agitou tudo quando viemos para Nagano procurar emprego. E foi ele também que teve a iniciativa de organizar a mudança, ligou para todo mundo e alugou o caminhão. Ele calcula que deve ter ficado mais de 36 horas sem dormir, carregando caminhão, dirigindo na estrada, não deixando o ritmo cair até estarmos todos instalados.
Há poucas horas ele se foi, com a mudança no caminhão da empreiteira nova, seguindo atrás no carrinho dele, no caminho de volta a Fukui-ken, e à estabilidade de um bom emprego por pelo menos 6, 8 meses, que é o horizonte de nossas expectativas nestes tempos bicudos.
Ele não acessa a Internet, mas mesmo assim, fica aqui mais um registro, boa sorte e tudo de bom, Yamamoto, você merece!

Aqui ficou um pouco mais triste, a cada dia as pessoas vão arranjando seus destinos. Desta vez não existe um lugar em que vamos todos juntos, cada um está se arranjando por si, formando outras ligações. Muitos ainda, estão voltando para o Brasil. Quanto a mim, vou passar uma temporada na minha irmã e ir para o Brasil conhecer o herdeiro de nossas dívidas.

Outubro 20, 2001

Comidas Estranhas 1



Basashi e Otaguri




Basashi é sashimi de carne de cavalo. Sim, fatias de carne crua de cavalo, come-se com shoyu e gengibre ralado. E Otaguri são fatias finas de carne de cavalo cozidas. É típico da cidade de Ina, que fica perto daqui.
Ao lado daqui de casa tem um açougue que fornece bandejas de basahi prontas para degustar.
Nunca provei. Quem já comeu diz que é um pouco dura e tem sabor forte.




Inago, Zazamushi e Hachinoko



Insetos, respectivamente, na foto, gafanhoto, larva de inseto de rio e larva de vespa. Também são uma iguaria desta região. São servidos cozidos, ou fritos no caso do gafanhoto, com molho shoyu açucarado. Aqui eu vejo vendendo em qualquer supermercado. Comprei um pacote para escanear, se quiser ver o pacote, é por sua conta e risco. Provei alguns, de curioso, é como comer camarão frito, só é estranho por causa das pernas serrilhadas, e não tem nenhum sabor em especial.

Outubro 19, 2001

Droga! Me passaram para o turno do dia. Botaram um dia de folga a mais na quinta e hoje, sexta, já tive que ir de dia. Bom, a esta altura mais da metade dos leitores deste blog já estão sabendo, por e-mail e messenger.
Eu adoro trabalhar à noite, ainda mais agora que me acostumei com apenas três horas diárias de sono.
E mais: de dia não dá para pegar as lojas abertas, nem o super, bancos, correios. Para qualquer dessas coisas tenho que esperar o dia de folga, na terça feira.
E a noite eu tinha um adicional no salário.
E também não vou mais conseguir pegar on-line o pessoal do Brasil, do Rio e de S. Vicente, quase sempre eles estão conectando quando é noite no Brasil e é dia aqui.
Mas vai ser por pouco tempo, uma semana, dez dias no máximo. Antes do fim do mês vou resolver para onde vou, não pretendo ficar até o dia 15 de novembro por aqui, não vai ter nada para fazer na fábrica.
Mas que dá uma insegurança, dá: não saber absolutamente onde se vai estar daqui a trinta dias...


Outubro 16, 2001

Procurando emprego

Que droga, procurar emprego de novo, detesto procurar emprego! Os empregos é que deviam procurar a gente!

Ainda não decidi o que fazer, voltar para o emprego anterior não está sendo possível. O meu antigo setor está com pouco serviço. As pessoas que foram chamadas de volta são todas para reocupar o posto antigo, alguns setores tem trabalho crescente, outros não. Mesmo assim, alguns são avisados de que não se tem certeza até quando vai o serviço atual, pode ser três meses, ½ ano, não garantem.
O Bin Laden também conseguiu ferrar com a gente :(

Pode ser que eu volte ao Brasil, passar uma temporada para conhecer o meu filho e matar as saudades da Beth. Também tem coisas pendentes que seria mais fácil resolver comigo lá.
O chato é que eu teria que ficar mais dois anos no Japão para atingir os objetivos mínimos.
Fica complicado por que não tenho dinheiro no momento, teria que pegar o último salário para pagar a passagem de avião e sobraria um pouquinho. E lá no Brasil, voltar a se apertar, sem as remessas do Japão. Uma possibilidade é ficar mais tres meses aqui, fazento arubaito, trabalho temporário, e acumular com o seguro desemprego a que tenho direito e não pedi até agora, um pequeno trambique.
Aí, ficar seis meses a um ano no Brasil, ou enquanto der para segurar o lado do din-din. Até lá, já deve ter melhorado por aqui.



Caravanas

Na unidade da Murata em que eu trabalhava chegou a haver mais de mil brasileiros. De fevereiro a julho, todo mês havia uma lista de corte com 50 a 150 nomes. Em agosto devia haver cerca de 300 brasileiros.
Nos últimos desses meses, qualquer notícia de lugar grande pegando gente se espalhava rápido, cada um passava a dica para os amigos. Em alguns casos, se juntavam caravanas de até trinta pessoas, para ir fazer entrevista em cidades distantes.
Quando vim fazer entrevista aqui em Nagano, viemos em um grupo de 10 pessoas em três carros. Um colega tinha uma dica, queria rachar as despesas da viagem, são 300km, só o pedágio chega a US$50. No telefone, a empreiteira dizia que não havia vagas, mas como um amigo que estava dentro contou que estavam pegando, arriscamos, e demos sorte.
Havia 50 vagas, que foram preenchidas todas em dois dias. Se deixássemos para viajar um dia depois, não íamos pegar nada. Quase uma loteria.
No dia da entrevista saímos às 5 da manhã e chegamos de volta as oito e meia da noite. Entrei em casa e ainda fui trabalhar a noite toda.
A Mudança

Depois da entrevista, todos aprovados, só faltava eles marcarem o dia para começar o trabalho. Não dava para começar de imediato porque a empreiteira não tinha apartamentos no momento. Tínhamos que aguardar eles chamarem quando tivessem apê.
Isso que era ruim , a espera. E ainda por cima, quando estávamos fazendo nossas fichas, no dia da entrevista, já havia gente antes e depois chegou mais gente, muitas delas da mesma fábrica nossa. A nossa insegurança era a empreiteira poderia ter conseguido apartamentos e chamar as outras pessoas e nos deixar por último. Quanto mais dias demorasse, eram dias a menos trabalhados. No nosso grupo, de dez pessoas, havia alguns que estavam parados há mais de 3 meses.
No meu último dia de aviso prévio, eles ligaram. Tinham os apês para nós. Ligaram à uma da tarde de uma sexta feira, para J., um colega que tem muita iniciativa e fala japonês muito bem. Imediatamente J. começou a ligar para todos, para deixarem as mudanças prontas para embarcar no começo da noite. Acontecia que essa empreiteira não faz as mudanças. Existem empreiteiras que mandam empresas de transporte expresso para fazer mudança, de graça, mas não era o caso. Ah, tudo pelo celular, quase todo mundo tem. Se não fossem os celulares não faríamos a metade do que precisávamos.
Às três da tarde J. alugou um caminhão médio, e às seis da tarde começou a “coleta”. Foram passando de casa em casa, carregando a mudança de todo mundo no caminhão. Muita coisa teve que ser deixada para trás. Achamos que era melhor assim, já que íamos em grupo, alugando um caminhão saíu por US$80 para cada um, se mandar por transportadora, pode chegar a 5 vezes esse valor. A medida que a mudança de cada um era embarcada, a pessoa ia junto para ajudar nas mudanças seguintes. A última mudança foi carregada quase às 3 da madrugada, trabalhando direto.
Como só tinhamos tres carros, e quem dirigia ia no próprio carro, era preciso arranjar um motorista para levar o caminhão na ida e na volta. E era preciso devolver o caminhão na locadora no dia seguinte. E nenhum de nós ia voltar. Então J. já havia combinado com dois colegas que ainda estavam empregados para levarem o caminhão. Eles iam pelo simples prazer da viagem, eles são assim.
Saímos em seguida, três e meia da manhã, um caminhão e três carros, dez pessoas e dois motoristas.
Chegamos em Nagano as sete e meia da manhã, no escritório da empreiteira, ainda fechado na manhã de sábado. Só quando o gerente chegou, entramos e assinamos o contrato de trabalho. O gerente ainda teve que esperar chegar outros funcionários, até que chegou o que nos levaria até o apê.
Então estávamos assim: O caminhão com a nossa mudança no estacionamento da empreiteira, a 300 km de casa, nós assinando os contratos de trabalho, e daí ainda íamos ver os apartamentos que nem tínhamos idéia de como eram.
Felizmente os apartamentos eram muito bons, com geladeira, fogão, banheira, ar condicionado, tudo novo em folha. É nesse prédio que se pode ver no álbum.

E agora, pouco mais de três meses depois desse dia, estamos todos nós procurando emprego de novo.

Outubro 14, 2001

Despedido

Gente, às vezes eu demoro para postar porque tenho que me concentrar pra escrever, frescura, né?
Agora não sei o que vai ser, infelizmente estou no aviso prévio.
Isso mesmo, DESPEDIDO!
Ainda vou ter 30 dias de aviso prévio, mas os últimos dias vão ser uma merda.
A minha seção INTEIRA está sendo despedida. As duas linhas de produção que tocamos vão ser desmontadas e mandadas para a Indonésia. As máquinas vão para a Indonésia e nós vamos para o olho da rua japonesa.
O serviço vai ter até o dia 5 do mês que vem. Depois, até o dia 15 é desmanche e limpeza. Quem ficar até os últimos dias deve ser uma chatice sem fim.

Outubro 11, 2001



Essa daí é uma embalagem individual de mini custard (espécie de bolo à base de ovos) recheado com doce de feijão cremoso.
Uma delícia.
Os posts antigos estão nos Archives. Para ver clique nos links de archives, aí na coluna da esquerda.